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2008.11.13
As barragens transmontanas

É de todos bem conhecida a dependência energética do País.

Os que analisam na generalidade o assunto e aqueles que minimamente se interessam por esta questão sabem quão desejável é reduzir tal dependência dum modo saudável e sustentável, como agora é moda dizer, e nesse campo as energias renováveis lideram as alternativas.

Dentro destas, Portugal dispõe de vento, sol e água fluvial e marítima que é imprescindível explorar para podermos continuar a manter os padrões de qualidade de vida atingidos pela generalidade da população portuguesa.

No potencial hídrico, aquele que agora me interessa detalhar, é sabido estarmos a 50% do seu aproveitamento, sendo evidente a necessidade de captar a respectiva energia ainda disponível a qual, ainda por cima, proporciona o armazenamento de um bem que, no futuro, se adivinha escasso.

No nosso País 85% da energia tem origem em matérias fósseis, na sua maioria importadas, o que se traduz numa pesadíssima factura energética nacional. A redução da dependência do petróleo e a redução das emissões de gases de estufa obrigam à tomada de opções que valorizem a energia limpa e renovável.

O programa governamental de construção de barragens com elevado potencial hídrico prevê 10 novos empreendimentos os quais, a concretizarem-se até 2020, como planeado, conduzirão ao aproveitamento de 70% das nossas capacidades hídricas.

Não constando de tal Plano a Barragem do Baixo Sabor por já estar adjudicada, para a nossa Região estão antevistas as Barragens da Foz do Tua, Pedroselos, Alto Tâmega, Daivões e Gouvães, ou seja, uma contribuição significativa de Trás-os-Montes e Alto Douro (tal como no passado, quando da construção das barragens do Douro) para o desenvolvimento sustentável do todo nacional.

Vozes velhas (que se dizem novas), erguem-se contra este plano com argumentos diversos tentando impedir a sua implementação num coro de opiniões que passaremos a tentar dissecar servindo o que adiante se disser, de um modo geral, tanto para a Barragem do Baixo Sabor como para a Barragem da Foz do Tua.

1º As Barragens não devem ser construídas porque não são acautelados os interesses das populações.

Eu terei que perguntar forçosamente se acaso alguma aldeia ou lugar irão ficar submersos, se haverá proprietários de terrenos, no futuro submersos, que não serão indemnizados, se existirá algum atravessamento (ponte ou passagem) que ficará sem alternativa no futuro.

Discutirei, também, a questão da perda de rendimento das populações. Infelizmente são escassos os terrenos em exploração que irão ser afectados pelas albufeiras. É sabido que as encostas das nossas linhas de água há muito deixaram de ser fabricadas e os leitos em planícies agricultáveis são em área insignificante. Duvido, igualmente, que no âmbito do pacote indemnizatório não seja possível atribuir, durante o período de vida dos actuais proprietários residentes, um subsídio financeiro de acordo com a rentabilidade da actual exploração.

2º As barragens constituem um aleijão à Paisagem e á Biosfera.

No tocante às ofensas às paisagens, eu gostaria de perguntar aos que me lêem se, comparando as paisagens do Douro Nacional e do Douro Internacional, antes e depois da construção das barragens de Miranda, Bemposta, Picote, Pocinho, Valeira, Régua, Carrapatelo e Crestuma, se acham que tudo foi pervertido, que o que era antes tinha sido uma dádiva da Natureza que o homem imbecilmente destruiu?

Digam-me com franqueza se as não acham agora com uma beleza incomparavelmente acrescida e, mais do que isso, com capacidade para melhor serem usufruídas a partir dos barcos navegando nas albufeiras das ditas barragens.

Quanto ao impacte na Biosfera, digam-me em que é que um plano de água é mais agressivo para a atmosfera do que a chaminé de uma central termoeléctrica?

Aparecem agora, contudo, referências malévolas quanto à produção de metano a partir das albufeiras, assegurando que este gás é 21 vezes mais contributivo para o aquecimento global do que o dióxido de carbono. Meus caros ambientalistas: digam-me em que parte do globo é que fizeram tais estudos e analisem se no Sabor ou no Tua tal será possível, sabendo-se da capacidade regenerativa destes cursos de água com nascentes na cadeia montanhosa galaica sempre alimentada por forte pluviosidade.

3º A albufeira vai engolir milhões de plantas, de animais e a terra dos homens.

Observemos o caso do Sabor. Tirando o alagamento duma área por certo pouco maior do que o maior dos latifúndios alentejanos (ou será que fiz mal as contas?), não vejo qualquer óbice a que na restante área em encosta, afecta ao empreendimento, se continuem a desenvolver as espécies florestais nativas (cerejeiras, sobreiros, carrascos, buxo, etc.) ora em recrudescimento.

Também não vejo qualquer impedimento, derivado do alargamento e aprofundamento do curso de água, para o crescimento e reprodução das espécies animais ora existentes. Quero crer que em ambas as margens do Douro Internacional continuam a existir lobos, raposas, lebres, coelhos, javalis, corças, esquilos, etc. Poderão ser animais portugueses ou espanhóis mas também, no futuro, poderá haver lobos de Alfândega, lebres de Mogadouro e javalis de Moncorvo. E se acaso houver perigo na extinção de alguma espécie (lontras?) porque não obrigar a EDP a criar um centro de criação, reabilitação e de repovoamento de tal espécie?

4º Há outras alternativas mesmo na energia hídrica; em vez de grandes barragens devem ser construídas mini-hídricas.

Esta questão traz-me à memória o retardamento da construção da Barragem do Alqueva, onde idêntico argumento foi estudado até à exaustão durante mais de 40 anos, o que levou alguém mais expedito, frontal e já desesperado a pintar, no paredão de uma obra acessória daquele grande empreendimento: "CONSTRUAM-ME, P_ _ _ _"!

Infelizmente não tenho, de momento, dados técnicos que me autorizem a desmontar categoricamente este argumento mas o conhecimento que possuo acerca da mini-hídrica de Gimonde (Bragança) permitem-me extrapolar os dados de que disponho. A noção que tenho é que a energia ali produzida e vendida actualmente pela Autarquia à EDP, daria para o abastecimento de uma população de cerca de 2.000 habitantes. O problema é que seriam precisas mais de 50 mini-hídricas equivalentes para alcançar a energia que virá a ser disponibilizada pela futura Barragem do Baixo Sabor e não há espaço para implantar tanta mini-hídrica nos 120 Km do Sabor.

5º As barragens são muito dispendiosas e são desastrosas para o ambiente (pela erosão e perda de solos, retenção de sólidos finos, mau comportamento nos períodos de seca, etc.).

A relação custo/benefício dos empreendimentos hidroeléctricos é reconhecidamente uma das suas vantagens quando comparamos os diversos modelos produtores de energia. Ao inicial pesado investimento, desde logo com uma forte componente de mão-de-obra local e incorporação de materiais e equipamentos de origem nacional, segue-se um longo período de vida útil com despesas quase nulas de operação e manutenção.

Invocar erosão ou perda de solos no caso das barragens transmontanas parece querer trazer à baila problemas característicos de outras regiões, planas e aluvionares, que não são, de todo, os casos em apreço.

Chamar a atenção para a possível insuficiência na afluência de caudais é subestimar os estudos que forçosamente se levam a cabo na fase inicial de análise da viabilidade de qualquer investimento no domínio hídrico. É certo que em períodos de grande seca se reduz a produção deste tipo de energia, mas esta é mais uma razão para diversificar as fontes de energia e incluir nelas também a hídrica, sempre tão disponível, nessas alturas de crise, para ajudar a combater os incêndios florestais e para suprir as sedes de muitas bocas e de muitas terras aráveis.

Nem tudo são rosas e não há intervenção humana que, de uma forma ou de outra, não prejudique a Natureza. No caso que venho expressando em defesa da construção de muitas e disseminadas barragens pelo País fora, o caso da retenção de sólidos é um dos (poucos, na minha opinião) aspectos malévolos das barragens pois impede o seu deslocamento e deposição, contrariando o seu natural andamento. Mas também aqui, se houver uma gestão adequada da sua recuperação via dragagens, ou outra, se poderá economicamente contribuir para a valorização do curso de água com mais uma fonte de rendimento não despicienda.

Oxalá em próximos números do nosso jornal apareçam novos argumentos contra a construção das barragens transmontanas que aqui estarei para os voltar a atacar.

António Cepeda


Posted at 19:21 by ntmad
Comments (3)  

2008.11.12
A Casa de Bragança - dois episódios

Sobre esta temática irei alinhavar uns brevíssimos apontamentos sobre dois extraordinários episódios acerca de dois Duques de Bragança.

Os episódios em causa : um, de gelar o sangue, tal a loucura do acto; o outro que, pela grande coragem do seu jovem autor, muito espantou os seus contemporâneos, portugueses e não só, e ainda hoje suscita a nossa admiração.

São duas "histórias da História", das muitas que o meu pai me contava e me deslumbravam . Esse deslumbre acentuou-se quando, já estudante em Coimbra, tive durante dois anos o privilégio de ser aluna do grande Professor Damião Peres que, homem sábio, apaixonado pelo saber, fazia a História ganhar vida própria.

Chega de conversa e vamos então ao 1º episódio que me propus contar-vos:

Foi 4º Duque de Bragança D. Jaime, nascido em 1479 e falecido em 1532. Era filho do 3º Duque, D. Fernando, que em 1483 foi acusado de traição e, por ordem de El-rei D. João II, decapitado em Évora. Não se sabe se o duque-menino , D. Jaime , apenas com 4 anos, terá visto a execução de seu pai. Sabe-se que à casa de Bragança foram confiscados todos os bens em favor da Coroa. Sua mãe, D.Jaime e irmãos refugiaram-se em Castela onde foram bem recebidos.

Após a morte de D. João II, aclamado rei D. Manuel I (27.10.1495), assina este a "Carta de Reabilitação" da Casa de Bragança (18.06.1496) declarando nulos os efeitos do processo de execução do Duque D. Fernando e manda regressar a Portugal D. Jaime e toda a família. Então, como 4º Duque de Bragança, entra D. Jaime na posse de todos os seus bens e mercês.

Era D. Jaime muito dado a práticas religiosas que, por vezes, implicavam mesmo o martírio. Em 1502, tinha então 23 anos e estava já acertado o seu contrato de casamento com D. Leonor, filha de D. Luís de Guzmão, 3º Duque de Medina Sidónia e grande nobre de Espanha, decidiu D. Jaime fugir do palácio para se tornar frade. El-rei D. Manuel teve de intervir, ordenando que o trouxessem de volta e obrigando-o a honrar o seu compromisso.

Para além desta faceta de grande religiosidade, parece que era de seu natural um acentuado pendor melancólico, revelando aqui e ali algum desequilíbrio psíquico.

Casou, pois, D. Jaime com D. Leonor e desse casamento houveram dois filhos. Era pagem de seu filho um fidalgo de sua casa, António Alcoforado, jovem de 17 anos.

As intrigas e a maledicência fervilhavam no palácio e terá D. Jaime suspeitado, ou algo lhe fora soprado ao ouvido, acerca da infidelidade da esposa com o pagem. Tresloucado de ciúmes, mandou prender o jovem e ordenou ao capelão que o confessasse. Após a confissão mandou-o matar no próprio palácio de Vila Viçosa.

A Duquesa, avisada do acontecido, correu com os filhos para os seus aposentos e aí os encontrou D, Jaime. Ordenou que o capelão fosse novamente chamado para a confessar. Parece que D. Jaime teria ainda hesitado, mas a intriga e o mórbido ciúme foram mais fortes e, num acesso de loucura, apunhalou a esposa, D. Leonor de Bragança. Isto aconteceu no dia 2 de Novembro de 1512, Dia de Finados.

O rei D. Manuel mandou instaurar um processo contra o Duque de Bragança, mas este refugiou-se em Évora-Monte e pode dizer-se que um silêncio espesso caiu sobre o caso. Com o silêncio veio o esquecimento. Talvez porque D. Jaime continuava a entregar-se a rigorosas penitências para expiar os seus crimes perante Deus e reparar perante os homens o mal que praticara.

Muito mais haveria certamente a dizer sobre D. Jaime (a ele se deve a construção do Palácio Ducal de Vila Viçosa, a reconstrução dos castelos de Ourém e de Porto de Mós, entre outros feitos), mas há que poupar espaço para o 2º episódio prometido.

Refere-se este ao 7º Duque de Bragança, D. Teodósio II, filho do 6º Duque, D.João e de sua mulher e prima D. Catarina. Nasceu D. Teodósio em Vila Viçosa e veio a falecer em 1630. Tinha apenas 10 anos e assistia aos preparativos de seu pai para, com 600 cavaleiros, 2.000 infantes de suas terras e 30 navios, tomar parte naquela que viria a ser a infelicíssima expedição a Alcácer-Quibir em 1578.

Porém, seu pai, tomado de sezões, não pôde embarcar. Por isso, enviou em seu lugar o pequeno duque para acompanhar El-rei D. Sebastião.

Nos primeiros recontros o duquesinho seguiu sempre o rei a cavalo. Porém, vendo que o perigo aumentava, D. Sebastião ordenou que se afastasse para devida segurança. D. Teodósio fingiu obedecer mas, no auge da batalha, montou novamente a cavalo e, seguido pelos seus soldados, juntou-se a D. António, Prior do Crato, e tomou parte na luta. Ferido na cabeça, foi feito prisioneiro com muitos dos seus servidores.

Seu pai, o Duque D. João de Bragança, mandou imediatamente tratar do resgate, custasse o que custasse. Filipe II de Espanha terá escrito ao rei de Marrocos que, vendo que se tratava de uma criança, mandou libertar o pequeno duque, não aceitando qualquer resgate.Penso que este episódio da nossa História, com destaque para a Casa de Bragança, merece ser lembrado pela carga de coragem, lealdade, amor e tolerância evidenciados por todos os intervenientes e que, ainda hoje, pode servir de lição de vida para todos nós.

Nota - Também desta vez peço a quem, nestas duas breves "histórias da nossa História", achar algo a acrescentar, completar e/ou corrigir, o favor de o fazer. Todos teremos a ganhar, aprendendo com quem é mais sabedor.

__________________
FONTES: Joel Serrão, "Pequeno Dicionário de História de Portugal", Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976;
Joaquim Veríssimo Serrão, "História de Portugal", Vol. II: "Formação do Estado Moderno" (1415-1495), 2ª ed., Lisboa, 1978;
Abade de Baçal, "Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança" , 2ª ed., Bragança, 2000;
Jean-François Labourdette, "História de Portugal", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2003;
Informação colhida na Internet, por ex. : em "O Portal da História" e em "GENEA" .

Leiria, 2008-09-26. Júlia Barros Guarda Ribeiro (Biló)


Posted at 21:06 by ntmad
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2008.11.08
HOSPITAL PRIVADO EM BRAGANÇA

Do "JN online" transcrevemos, da autoria da jornalista Glória Lopes:

HOSPITAL PRIVADO CUSTARÁ 10 MILHÕES DE EUROS

Nos próximos dois anos, Bragança irá beneficiar de um investimento superior a dez milhões de euros na área da saúde, com a construção de um hospital privado, que prevê a criação de 250 postos de trabalho.

Trata-se de um projecto associado a uma Escola Superior de Saúde e Gestão e de uma Unidade de Geriatria, cuja instalação será da responsabilidade da CESPU - Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário. A nova unidade de saúde já tem nome registado e vai designar-se Nova Saúde - Hospital Duque de Bragança (HDB).

O projecto definitivo deverá ser apresentado em Fevereiro de 2009, ano em que deverá começar a ser implementado. O presidente da Câmara de Bragança, Jorge Nunes, lançou um repto ao presidente da CESPU, no sentido de a sua construção ser iniciada no próximo ano, por se assinalarem os 545 anos da elevação da localidade a cidade.

O responsável pelo grupo CESPU, Almeida Dias, não quis avançar datas para a inauguração, mas garantiu que o prazo de construção não deverá ultrapassar os dois anos.

O projecto contou com o apoio do município, que vendeu um terreno de 2300 metros quadrados contíguo às instalações do ISLA, um dos sócios do projecto, por 10% do seu valor no mercado.

O Hospital Duque de Bragança ocupará uma área que ronda os 15 mil metros quadrados, e está a ser projectado para ser um hospital escola, para onde serão canalizados os licenciados do grupo, pelo que deverá ter as valências de Fisioterapia, Imagiologia, Análises Clínicas, Cirurgia de Ambulatório, Análises Clínicas, entre outras.

A Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário CESPU em colaboração com o ISLA Bragança, um dos parceiros locais, está a dar os primeiros passos para a concretização de uma plataforma de ensino e formação na área da saúde designada "Ensinar Saúde Bragança", que prevê a criação de uma Escola Superior de Saúde, cujo processo está a aguardar luz verde do Ministério do Ensino Superior para começar a trabalhar.

"A ideia é criar sinergias entre ensino superior, a formação profissional e os serviços de saúde", explicou Almeida Dias.

Ontem, foi apresentado o Instituto de Formação Pós-Graduada em Ciências e Tecnologias da Saúde, que irá alargar a oferta dos actuais cursos na área da gestão de unidades de saúde e cuidados continuados, consultadoria em qualidade alimentar e auditoria da saúde.

O Instituto deverá estar a funcionar no próximo ano. Em Janeiro arrancam as pós-graduações em Gestão da Qualidade e Auditoria em Saúde e da Consultadoria e Auditoria em Segurança Alimentar.

Vão ainda ser criados dois centros, um de Treino de Emergência Médica, Trauma e Catástrofe e um Centro de Medicina do Desporto, incluídos numa rede de cinco por cada valência que vão ser criados no país.

O primeiro Centro de Desporto vai ser inaugurado em Famalicão, no próximo dia 20, "com o objectivo de apoiar o desporto de competição", explicou Almeida Dias.


Posted at 07:46 by ntmad
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2008.11.04
Em defessa da Raça Asinina de Miranda

por Rui Matos Nogueira*

O Planalto Mirandês viu surgir, nas suas condições naturais impares, um grupo diferenciado de exemplares de gado asinino, constituindo, os indivíduos remanescentes, o efectivo da entretanto reconhecida Raça (autóctone) Asinina de Miranda. De uma população numerosa, passou a cerca do milhar actual, um declínio acentuado ditado pelas profundas alterações no mundo rural e que têm expressão máxima na desertificação demográfica e envelhecimento dos povoados rurais. Neste quadro se inscreve um igualmente crescente abandono da actividade agrícola, facto que a par da mecanização retirou importância ao burro enquanto animal de trabalho. A constatação da involução no número destes burros na região levou à criação da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino
 (AEPGA), uma associação não governamental sem fins lucrativos constituída notarialmente a nove de Maio de 2001, que
 tem por objecto social a preservação e a promoção do gado asinino, com especial enfoque na Raça Asinina de Miranda, de forma a defender do risco de extinção um património genético único, potenciando um modelo sócioeconómico em perfeita harmonia com o meio ambiente. A transmissão inter-geracional das tradições culturais associadas à relação secular entre homem e burro constitui um aspecto a valorar enquanto contribuinte para uma identidade regional. O Burro de Miranda ajudou durante muito tempo a compor a paisagem das propriedades rurais do planalto mirandês, nas quais formavam o principal suporte do serviço realizado a tracção animal. Podem ter cedido as estradas para os carros e muitos campos para as máquinas agrícolas mas é uma raça ainda amplamente usada na região pelas suas características fenotípicas e comportamentais, apreciada pela resistência associada à robustez, pela maciez do passo que lhes confere um certo "glamour" nos desfiles em romarias da região. Hoje, mesmo sem o grau de importância de outrora, estes animais ainda são úteis na propriedade. A AEPGA colabora activamente com os criadores de animais da raça in
 locum, mediante a prestação de cuidados técnico veterinários, fomentando os nascimentos através da reactivação de "Postos de Cobrição" havia muito extintos, promovendo campanhas de bem-estar animal, organizando acções de formação em maneio, revitalizando feiras, recriando rotas comerciais em tempos realizadas em burro. Organiza passeios temáticos em burro que visam, para além de formar na área eleita, dar a conhecer o património natural e edificado da região. Realiza workshops de veterinária e zootecnia na área da sua competência, tendo a temática da abordagem terapêutica, mediada por recurso ao burro, recebido um especial acolhimento por parte da associação. Nas escolas, realiza acções de sensibilização que visam a educação para uma cidadania activa e responsável.

Conscientes de que cada geração humana é detentora da Terra para as gerações futuras e que lhe cabe a missão de gerir de forma que esse legado seja preservado, e que, quando dele se faz uso, essa utilização seja prudente;

Estamos conscientes do valor cada vez maior de que as raças autóctones se revestem do ponto de vista mesológico, ecológico, genético, científico, recreativo, cultural, educativo, social e económico.

____________________________________
*da AEPGA, tlm: 922 032 644

Posted at 07:44 by ntmad
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2008.11.01
Comunicado do Movimento Cívico pela Linha do Tua

Assistimos nestes últimos dias a mudanças históricas na Linha do Tua, que extravasam inclusivamente para os Caminhos-de-Ferro Portugueses em geral. Depois da Regeneração em pleno século XIX, na qual Fontes Pereira de Melo declarava no palácio de São Bento "pois a mim custa-me contentar com duas (linhas de caminho-de-ferro)", e de um século XX onde se foi assistindo a muito do que de pior se pode fazer na ferrovia, eis que é em pleno século XXI que um Governo vem defender novamente o transporte que continua a revolucionar o mundo.
"É uma linha que tem objectivos e que pode ser utilizada em benefício do Turismo e das populações, portanto a nossa intenção é continuar com a linha", diz Mário Lino, sucedâneo da pasta de Fontes Pereira de Melo. "O serviço ferroviário é muito importante para o desenvolvimento deste território e para o sistema de mobilidade do país", e "A única razão porque se virá a encerrar, total ou parcialmente, a linha do Tua, é, única e exclusivamente, por causa da construção da barragem", diz Ana Paula Vitorino, Secretária de Estado dos Transportes.
Com este virar de página histórico, o próprio Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (MOPTC) põe em xeque a barragem do Tua, obra defendida por uma minoria de interessados ou mal esclarecidos, e admite o verdadeiro valor incalculável que representa a Linha do Tua na região, uma vez que a promessa de alternativas ao traçado actual não passa de pura fantasia. É um compromisso que o MCLT aplaude e não permitirá cair em esquecimento.
 O MCLT está no entanto estarrecido com algumas das passagens do relatório final relativo ao acidente de 22 de Agosto do corrente, nomeadamente com a lacuna de regulamentação específica sobre as Vias Estreitas (VE) em Portugal. Maior se torna a nossa estupefacção face às dúvidas que se levantam às Linhas do Corgo e do Tâmega, sendo justo perguntar se os vários organismos ferroviários só agora descobriram que as LRV2000 circulam no Corgo desde 1995 (ano da inauguração do Metro de Mirandela) e no Tâmega desde 2002.
Felicitamos o sério comprometimento no apuramento das causas do acidente, e na tomada de medidas para a consolidação da segurança na Linha do Tua. É também nosso desejo que os estudos intermináveis dêem lugar à acção responsável, uma vez que a linha já foi alvo de estudos no ano 2000, e teve onze meses de estudos após o acidente de 12 de Fevereiro de 2007. Não queremos que se transforme a Linha do Tua numa nova Entre-os-Rios, onde se estudam e identificam as potenciais causas de problemas e respectivas soluções, para depois não as corrigir/implementar. A Linha do Tua tem 58km em exploração: o plano a concretizar tem de contemplar esta distância, e não apenas as dezenas de metros circundantes a cada local de sinistros.
 Queremos ver solucionado de igual forma a questão do material circulante, que se por um lado após 13 anos de serviço no Corgo e no Tua e 6 no Tâmega só agora levanta problemas, por outro demonstra ser subdimensionado em linhas infundadamente acusadas de possuidoras de tráfego reduzido. O silêncio da CP nesta matéria é incómodo, visto ter retirado em 2001 material mais pesado e com mais capacidade da carga que ou foi posteriormente vendido ou simplesmente abandonado. Da proprietária da linha, a REFER, continuamos a esperar investimento e melhoramentos sérios, apagando futuramente da memória uma Linha do Tua com erros estruturais "grosseiros", e emparedamento de estações, convite descarado ao afastamento de utentes. De igual forma, ficou agora provado que a marcha à vista e os novos patamares de velocidade são desajustados à realidade actual, pelo que a nova Linha do Tua não poderá continuar a velocidades comerciais do tempo da sua própria inauguração há 121 anos.
 Relembramos que em matéria de mobilidade uma auto-estrada representa custos elevadíssimos, para um meio de transporte poluidor e ineficiente, sem no entanto se levantarem problemas à sua proliferação, mormente no Litoral do país. Não aceitamos para os futuros e necessários investimentos para a Linha do Tua outra atitude que não a da sua aceitação e rápida implementação, nunca pondo de parte a sua continuação para a reabertura da linha a Bragança e ligação à Alta Velocidade europeia na Puebla de Sanábria.
 Em suma, renovamos o nosso voto de investimento sério e sustentável, na totalidade da linha, e o assumir sério e honesto de responsabilidades legais, morais e cívicas para com as vítimas destes acidentes, os utentes, e demais população servida pela Linha do Tua.
 

Movimento Cívico pela Linha do Tua, 29 de Outubro de 2008.
www.linhadotua.net
 


Posted at 18:47 by ntmad
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2008.10.27
A Barragem do Tua e os esforços para impedir a sua construção

por António Costa

Realizou-se no passado dia 25 de Julho na Casa Regional dos Transmontanos e Alto Durienses do Porto uma debate sobre a problemática da construção da barragem prevista para a foz do rio Tua, promovida por esta Casa e pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. A sessão presidida pelo Presidente da Assembleia Municipal de Mirandela, Dr. José Manuel Pavão, contou com diversos oradores a seguir indicados: Gaspar Martins Pereira, Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; José Manuel Lopes Cordeiro, Professor Universitário e Presidente da APPI - Associação Portuguesa para o Património Industrial e membro da Direcção do TICCIH - The Industrial Committee for the Conservation of the Industrial Heritage; Manuel Matos Fernandes, Professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; Manuel Tão, Professor Universitário e Doutor em Economia de Transportes; Dra. Manuela Cunha, Assessora do Grupo Parlamentar Os Verdes e Dirigente do Partido Ecologista "Os Verdes" e Viviana Rodrigues, Arquitecta Paisagista. Na assistência encontrava-se ainda uma deputada do Bloco de Esquerda, no meio de mais de 130 pessoas que acompanharam com grande interesse o debate, e intervieram quando tiveram essa possibilidade.

O debate caracterizou-se por uma grande identidade de pontos de vista sobre a necessidade de impedir a construção da barragem. Uma tal construção descaracterizará completamente o vale do Tua tal como o conhecemos hoje; destruirá a respectiva linha ferroviária, pois deixará de haver ligação por via reduzida à estação do Tua, e consequentemente à rede ferroviária nacional; permitirá uma grave destruição do património cultural das populações que hoje se revêem no vale e na linha do Tua; empobrecerá populações cujos rendimentos agrícolas desaparecerão devido às suas terras serem alagadas; e será feita ao arrepio da necessidade de valorizar a ferrovia face à rodovia, devido aos recentes acontecimentos associados ao disparo do preço do petróleo.

António Armando da Costa, vogal da direcção da CTMAD esteve presente no debate intervindo no sentido do reforço das posições expressas e manifestando o interesse de que um debate semelhante se realizasse em Lisboa, organizado pela Casa, em conjunção com o Movimento Cívico pela Linha do Tua.


Posted at 07:13 by ntmad
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2008.10.25
D. Maria Pia de Sabóia

por Armando Jorge Silva

Que tem esta senhora a ver com Trás-os-Montes e Alto Douro? Nada de especial que se saiba. Neste momento, porém, algo lhe vem associado. Vejamos:

D. Maria Pia, era italiana da casa aristocrática de Sabóia, filha do rei Victor Manuel. Casou com o rei português D. Luís sendo mãe do rei assassinado D. Carlos e avó do último rei D. Manuel II. Foi, portanto, a penúltima rainha de Portugal. Morreu exilada na sua Itália, em 5 de Julho de 1911.

José Manuel Pavão foi deputado, preside à Assembleia Municipal de Mirandela, é médico pediatra, dirigiu durante seis anos o Hospital de Crianças Maria Pia, no Porto, e... é transmontano.

Como ele pessoalmente nos confessou e escreveu, durante os muitos anos que trabalhou naquele hospital sempre o retrato daquela distinta senhora ali exposto o acolheu e estimulou a saber mais da sua vida. Para o efeito, convidou o amigo João Cerqueira, licenciado e mestre em História de Arte e solidariamente publicaram o livro biográfico Maria Pia Rainha e mulher.

O livro foi lançado em Lisboa, no dia 24 de Junho, no Palácio Nacional da Ajuda, onde Maria Pia viveu. E é aqui que surge a tal associação da nossa terra transmontana com Maria Pia de Sabóia. Pelo autor do livro, que é transmontano, e porque a nossa CTMAD colaborou activamente no evento. Muitos associados nossos marcaram presença e, na mesa, ao lado do Senhor D. Duarte e do Sr. General Ramalho Eanes, que apresentou os autores e obra, sentaram-se e intervieram com breve comunicação os presidentes da Assembleia Geral e da Direcção da nossa CTMAD, respectivamente, Dr. Guilhermino Pires e Dr. Jorge Valadares.

O nosso associado Vasco Saldanha (Ni), grande entusiasta da iniciativa e sua amiga Emanuelle Afonso recriaram com trajes da época as pessoas do rei e da rainha.

Deste bem sucedido evento cultural damos notícia e apresentamos as seguintes imagens:

 

 


Posted at 22:24 by ntmad
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Maria Pia no Palácio da Ajuda

por José Manuel Pavão*

Não são ainda muito claras e por isso pouco convincentes, as razões que impediram o casal real, D. Luís e D. Maria Pia, de voltar ao Palácio da Ajuda, a casa onde viveram a sua vida de consortes e de monarcas, para devidamente representados participarem no lançamento duma quase biografia da penúltima rainha de Portugal.

É nossa convicção que por detrás dos argumentos, estarão algumas mal disfarçadas e recalcadas aversões à monarquia, ou então, o mais provável, as habituais reticências e entraves ora postas a nu por alguns quadros da nossa Administração Pública quando são tocados por um conhecido mal, potencialmente epidémico e para já sem terapêutica, chamado burocracite crónica.

Cumprida a exigência, qual máscara censória, do prévio envio do livrinho, nem mesmo o facto do apresentador ser uma ilustríssima figura da República, quiçá a mais ilustre dado ter sido o obreiro da estabilidade democrática, foi suficiente para ultrapassar o "não enquadramento do acto na programação do Palácio".

Não se engalanou portanto o Palácio, nem o seu Director mandou desfraldar bandeira e estender tapete aos ilustres...

Assim, foi na biblioteca que o Sr. General Ramalho Eanes perante uma numerosa assistência, com o rigor de análise que o caracteriza, fez a apresentação do livro "Maria Pia, rainha e mulher", da autoria de José Manuel Pavão e João Cerqueira.

E teve absoluta razão o ex-Presidente da República quando afirmou não ter sido a rainha a criadora do Hospital de Crianças do Porto, que durante mais de um século levou o seu nome como patrono, e que ora está em vias de desaparecimento por decisão política do actual Governo.

De facto, deve-se à coragem de um grupo de Homens Bons do Porto, que preocupados com a situação social da sua cidade, fundaram um Hospital para crianças pobres e doentes, e onde existiu uma escola médico-cirúrgica de enorme prestígio.

Como dissemos no livro, a Rainha Maria Pia, reconhecidamente gastadora, deixou também testemunhos de grande sensibilidade social e por isso a chamavam de "Anjo da Caridade", mas onde mais incidimos a nossa atenção foi na sua figura de mulher no habitat da corte, depois perante a trágica enormidade do regicídio e ainda as alterações comportamentais que se seguiram.

Mesmo sabendo haver quem não goste de rever a história, neste caso duplamente real por ser de reis e de verdade, é nossa convicção que a iniciativa, mesmo sem jornais e sem TV, foi um contributo, ainda que modesto, para a animação cultural da cidade alfacinha.E isso, enche-nos de alegria. Mas no final, o que perdura, é o grito de alma dessa mulher-rainha a caminho do exílio, quando disse não ter já Família nem Pátria

Ora quando isso acontece, tal como o Romeiro de Garrett, não somos de facto Ninguém.

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*médico, ex-director do Hospital Maria Pia


Posted at 20:28 by ntmad
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2008.10.19
Ares da Serra - Ti Zé Miguel contador de histórias

por António Augusto Fernandes

Naquela zona mitificadora da memória onde se enovelam maravilhosos fiapos da infância, entre os fantasmas amigos de antanho, aparece-me, vago e em tons de sépia, o Ti Zé Miguel.

Ti Zé Miguel, o homem das sete mulheres, a legítima mais seis filhas! Era também o meeiro a quem meu pai confiara as parcas leiras herdadas da avó Adriana da Portela, homem mais pachorrento e caladão que os bois com quem lidava de sol-a-sol e a quem atribuía uma vaga alma de gente. Com um sorriso imperceptível gasalhado sob o bigode talhado à maneira da primeira grande guerra, o rosto tisnado e a cabeça ligeiramente tombada sobre o ombro direito, no jeito paciente dos bem-aventurados das pagelas que se vendiam nas romarias, assim ele me surge, ainda hoje, do nevoeiro da memória, no seu passo lento e bamboleado como os dos patos, de aguilhada ao ombro à frente da galharda junta de bois que meu pai comprara na feira dos Chãos, espalhando um olhar manso como o deles. No Outono víamo-lo aparecer do nevoeiro, como um elfo, à frente do carro carregado de toros e trazendo no feltro do chapéu e no rectângulo do bigode pérolas minúsculas, farrapos das névoas que vogavam pelas touças do Cabeço Cercado, e, no cotim coçado da jaqueta, argalhos de giestas e o cheiro dos mentrastos. Era capaz de passar um dia inteiro por lá com uma côdea negra de centeio, um naco de toucinho e meia dúzia de palavras. Com um toco de Kentucky apagado ao canto da boca, derramava, de longe em longe, um esboço de sorriso calado sobre a gente e as coisas. O seu espírito perdia-se por lá numa comunicação vegetativa com os soutos, as touças, as searas, mais do que com as bisbilhotices da aldeia.

Desjungia os bois, botava-lhes um braçado de feno e vinha sentar o seu silêncio sobre uma tripeça, à lareira, fitando as brasas. E, enquanto as pantalonas puídas pelos anos fumegavam da humidade dos lameiros, executava, com delícias de sultão bizantino, o cerimonial do cigarrito antes da ceia: começava por alisar uma mortalha na palma da mão, desfazia-lhe em cima quatro ou cinco piriscas avaramente guardadas no bolsinho do colete, alinhava o tabaco ao longo da folhita de papel, catando com minúcia os fiapos de tabaco desalinhados da fieira, enrolava-o em escrupuloso e fino cilindro, humedecia a fímbria da mortalha com a ponta da língua, e umas fagulhas de volúpia chispavam-lhe já dos olhitos miúdos. Entalava a obra de arte nos lábios. Com a tenaz aproximava uma brasa, sugava o fumo com sofreguidão e largava as primeiras baforadas com mais delícia que sultão fumando o seu narguillé.

Depois da cigarrada, a tia Isabel Caldeireira, a mulher, gritava pela filharada - eram sete! - e o rancho familiar abancava em volta da arca grande onde se guardavam os largos pães centeeiros da semana e os nacos de toucinho com que se adubava o caldo e se acaudatava o carolo da merenda. Ao centro fumegava o cogulo das batatas farinhotas e couves tronchas em travessa esmaltada de figurações cor de lagarto, vasta como gamela, acolitada por um prato fundeiro com alho picadinho sobre azeite diluído com a água do caldo - se o litro de azeite custava duas jornas de sol-a-sol!... - onde à vez cada um ia molhando a batatinha e o talo de couve.

E a mim, menino debiqueiro arribado da cidade, aguavam-se-me os olhos por aquelas batatas besuntadas naquele rico molho de pobre. E nunca deixava que me repetissem o convite para também eu empunhar heroicamente o meu garfo de ferro e arranchar com a malta alegre dos Caldeireiros a que aliás pertencíamos por parte da mãe, provindos de um galego Caminha arribado dos lados de Arzua. E o caldo verde adubado com uma colher de unto e um naco de toucinho! Santo Deus! que delícias de Sardanapalo! Algumas nalgadas apanhei eu à conta dessa minha desavergonhada pironguice, quando a Amélia, a nossa empregadita, se descaía a contar a minha mãe estes faustosos banquetes!

***

Este Ti Zé Miguel deve ter sido um dos últimos contadores de histórias e um dos artistas-mores da castanha assada nos velhos assadores feitos de tiras de folha-de-flandres entrelaçadas. Nas noites assanhadas de invernia, com o vento uivando desesperadamente lá fora e a chuva a crepitar sobre a telha vã da cozinha, depois da ceia, Ti Zé Miguel pousava-se sobre a sua tripeça lustrosa do uso como pitonisa que se dispõe a presidir a um ritual. Do bolso do colete sacava o macinho de Kentucky e, com ar beato de sibarita moderado, puxava as primeiras fumaças com que a Sibila de Cumas pedia a inspiração de Apolo. Depois, com gestos sábios, cogulava o assador com as castanhas reboludas do Souto de Cadavez, enganchava-o no cadeado e metia mais uma giesta na fogueira. Era o sinal: a gaiatada, alapava-se em redor sobre mantas velhas estendidas no soalho, de queixo no ar e olhos no Ti Zé Miguel. O velho Homero puxava outra fumaça, pigarreava e soltava a voz mansa e cava, ligeiramente enrouquecida do tabaco de vastos anos: Era uma vez...

Lá fora zurrava temporal desfeito. A chuva assanhava-se sobre a telha de meia cana, o vento resfolegava no sabugueiro do outro lado da rua, uma golfada de ar frio infiltrava-se sob a telha, apagava a candeia e enovelava o fumo acre dos cavacos de carvalho mal secos e fazia-nos lacrimejar. Deixá-lo!... Era uma vez... E nas palavras arrastadas vinham emergindo, das sombras e fumos que se adensavam pelos cantos da cozinha mal alumiada, mundos fantásticos de bruxas e fadas, reis e princesas, bandidos e almocreves, pícaros e trágicos.

As paredes enegrecidas pela fuligem esvaíam-se e do negrume surdiam florestas escuras donde fosforesciam os olhos do lobo mau, onde perpassava o rabicho cedilhado do coelho casquilho; ou os burros tropiqueiros dos ciganos, os cavalos pimpões dos cavaleiros que matavam dragões e gigantes para salvarem princesas que, choronas e apaixonadas, do janelo de suas torres, alongavam os olhos pelos caminhos donde surgiria o galhardo salvador.

De quando em vez, sustinha a narrativa, sacudia, em ligeiros golpes de mestria, a asa do assador, e a pequenada, de narinas frementes, aspirava com volúpia o perfume da pele esturricada das castanhas... E de novo voltava a magia da palavra, criadora de mundos, como o Verbo inicial saído a boca de Jeová: ele era a história do Conde das Arcas decepado das mãos e frigido em caldeirão de azeite, por espanhóis ou mouros (para o caso tanto faz); ele era o Pastorinho Perdido nos longes da serra e perseguido por lobos maus, ou ainda O Arre, Burro, Caga Dinheiro!, burrico sobredotado que se alimentava de patacões velhos do tempo dos afonsinos e largava luzidias moedas de ouro que faziam rico a seu dono. Havia também a história das Três Maçãzinhas de Ouro, tesouro avaramente escondido pelos mouros debaixo da Fraga Grande da Ladeira, um avantesma de penedo que, talhado, daria para erguer outro bairro da Portela, e que uma moira encantada trouxera para o Alto da Ladeira, à cabeça, numa noite de luar, enquanto fiava estrigas de oiro em roca de oiro, com um fuso de oiro. E debaixo da fraga desmesurada sepultou ela as três maçãzinhas de oiro, furtando-as à cobiça dos nazarenos. E ainda lá estão à espera que alguém descubra as palavras mágicas que irão baldear a fraga gigantesca.

Eram, enfim, luminosos mundos de fantasia que moravam connosco, que se erguiam já ali, por detrás do áspero granito que nos separava da treva e das cordas de água que desabavam lá fora.

***

Depois era a festa da castanha, dos bilhós a nascerem loiros e perfumados do negrume das cascas tisnadas. Com risadas, riscos de fuligem pela cara e o jogo do arrebunhana em que se faziam e desfaziam fortunas daquele oiro que os soutos da serra pobre nos tinham dado e faziam de nós os reis do mundo.

Irremediavelmente, como perdemos a infância, assim os perdermos a eles, aos contadores de histórias e ganhámos em sua substituição esses outros contadores de outras histórias, a desengraçada e chatíssima subespécie dos políticos, prováveis parentes afastados do Barão (o onagrus baronius de Garrett) que impudentemente nos entram casa dentro pela janela mágica de McLuhan, prometendo-nos o bacalhau a pataco e bufarinhando com a nossa consciência.

Que é feito da graça, da imaginação, da simprez do Ti Zé Miguel que nada prometia, nada pedia e aos mundos fabulosos das suas histórias acrescentava a dádiva das suas castanhas, as melhores castanhas do mundo!?

E quando as pálpebras pesavam já com o sono, acontecia de arranchar também na dormida e por ali nos amontoávamos aos quatro e cinco em cada uma daquelas camas de bancos, ajaezadas com lençóis de estopa mais áspera que a estamenha com que os eremitas medievais ganhavam o paraíso, e grossos cobertores de papa tecidos no tear palreiro da Zulmira com a lã por ali crescida, nos gados do Frederico ou do João Santo e cobertas com as mantas de trapos que os cesteiros ambulantes trocavam pela cesta de batatas.

E em sonhos continuávamos as histórias do ti Zé Miguel, visitados por cavalos brancos arreados a ouro e cavalgados por princesas gentis, ou assustados por lobos maus que saltavam, de olhos em brasa, das touças cerradas do Cabeço Cercado. Assim sonhávamos as histórias do ti Zé Miguel e não era raro que, ao amanhecer, nos víssemos presenteados, sobre as mantas de trapos, com montículos de prata que ou fadas tecedeiras ou anões moleiros peneiravam das nuvens pela peneira da telha vã.

 


Posted at 06:53 by ntmad
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2008.10.08
1º ENCONTRO DAS CASAS REGIONAIS EM LISBOA

A Associação das Casas Regionais em Lisboa (ACRL) leva a efeito no próximo dia 11 de Outubro 2008, a partir das 20:30 h, no Salão de Festas no Vale Fundão da Junta de Freguesia de Marvila, o 1º ENCONTRO DAS CASAS REGIONAIS, com folclore, cavaquinhos, e música tradicional.

A ACRL convida os Orgãos Sociais e todos os associados da CTMAD e das outras Casas Regionais a participar neste evento.

Contactos da ACRL:

Rua Augusto Rosa, 58 - 1º, 1100-059 Lisboa. E-mail: acrl.lisboa@gmail.com

 


Posted at 11:46 by ntmad
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