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Tel. 217939311 Fax 217939198
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NPC 500788863
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2007.05.18
NORDESTE

Discurso proferido em 12 de Maio 2006 no Forum Lisboa

 

Em primeiro lugar devo agradecer, muito reconhecido, o facto de a Casa de Trás-os-Montes ter organizado esta sessão, também o de tantas pessoas terem decidido estar presentes, e finalmente que o Doutor Fernando do Amaral, pela sua excessiva bondade que o caracteriza, e trazendo consigo o prestígio de uma tão longa e fecunda carreira, ao serviço do País e da justiça, se tenha disposto a discursar numa reunião de trasmontanos em que sobretudo me sinto na função de pretexto, sem outro mérito justificativo. De mim posso também dizer que "menino e moço" me trouxeram, a minha mãe Leopoldina e o meu pai António, ambos solidamente trasmontanos, para a cidade grande, que era um dos destinos da nossa constante corrente migratória de gente pobre, sempre cristãmente modesta mas nunca humilde, praticando que a igualdade vem da maneira de viver e não da maneira como se ganha honestamente a vida, porque todos esses trabalhos são igualmente dignos.

 

Que o meu pai, que se reformou subchefe ajudante da Polícia de Segurança Pública do Porto de Lisboa, e a minha mãe que trabalhava arduamente na máquina de costura que está em casa do meu filho mais velho, tenham decidido e conseguido, a duros mas alegres sacrifícios, que a minha irmã Olívia fosse médica, e eu me formasse em direito, ambos na Universidade de Lisboa, torna fácil entender que sinta, no meu íntimo, que esta homenagem trasmontana lhes pertença, também porque nos educaram no amor à terra de origem, às suas tradições, às suas virtudes e costumes.

 

Na minha vida sempre me encontrei ligado a trasmontanos e, para falar apenas dos que já morreram, não posso deixar de recordar o Almirante Sarmento Rodrigues, tão decisivo que foi nas minhas escolhas de serviço à comunidade, do seu e meu amigo Dr. Joaquim Trigo de Negreiros, do Dr. Águedo de Oliveira, todos da geração da qual foi celebrado o centenário do nascimento, em que tive a honra de ser orador, e membros de um grupo mais alargado de trasmontanos que estavam juntos no governo no meu tempo de jovem licenciado, e que por isso conhecíamos como A sereníssima Casa de Bragança.

 

Mas hoje, quando, no entardecer da vida, recordo as gentes e as terras por onde passei, o que mais seguramente me vem à lembrança é o avô Valentim sentado na pedra que na aldeia de Grijó de Val-Bem-Feito lhe servia de banco para ler o jornal, a Maria Boleira que me tinha sempre reservada uma bôla de azeite, o Manuel Fiscal que se despedia desejando "a saúde ou dinheiro, que Deus não pode dar tudo", a minha tia Maria que me ensinou a ler pela Cartilha de João de Deus, o moínho onde trabalhou o meu avô paterno que não conheci, o arroz doce e as alheiras da minha avó Olívia, o direito abusivo que eu tinha de emparceirar com o meu primo Alexandre para carregar o andor do Menino Jesus na festa do Senhor do Calvário, no primeiro domingo de cada Setembro.

 

Nos longos caminhos do mundo por onde andei, na África do nosso findo Império, no Brasil, nas duas costas dos EUA, no Oriente, sempre encontrei o mesmo fenómeno da solidariedade dos trasmontanos emigrados, entre si e logo de braços abertos para os que chegam. Na década de sessenta do século passado, sendo então Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, pareceu-me necessário organizar a solidariedade das comunidades de portugueses residentes no estrangeiro, com as comunidades de descendentes de portugueses, e ainda com as comunidades filiadas na cultura portuguesa porque por ali tinham passado ou a soberania ou a pregação portuguesas.

 

Fiz uma longa viagem ao redor da terra para organizar o I Congresso dessas Comunidades em Lisboa-Guimarães-Coimbra (1964), e o II Congresso a bordo do Príncipe Perfeito (1966), navegando no Índico na rota de Vasco da Gama ao longo da costa de Moçambique, e sempre, espontaneamente, os trasmontanos que existissem se mobilizaram para que o projecto se efectivasse.

 

Foi então que pude viver a força de um portuguesismo que se mantinha, variado na forma mas com igual substância, na diversidade de meios e de circunstâncias em que se encontravam: percebi que existia uma realidade a que chamei A Nação Peregrina em terra alheia, e que os trasmontanos formaram sempre um elo dessa rede que se estendeu a partir da interioridade nordestina por todos os caminhos que abrimos pelo mundo. O conceito de Reino Maravilhoso, que devemos a Torga, tem certamente origem na beleza da paisagem que muda harmonicamente com as estações, e depois com a amorosidade que para sempre envolve a relação da terra com os seus filhos, mas os custos da interioridade foram enormes ao longo dos séculos, nesta região que foi sempre do Reino político português, sem guerras de conquista. Os progressos evidentes das últimas décadas europeias não eliminaram todos os custos, mas serão melhor avaliados em face da memória de carências passadas, e da submissão à natureza das coisas. Lembrarei a Colheita do Senhor, palavras com que se aliviava a dor das mães que em cada ano sofriam a perda dos meninos de anjos sem pecado. Ou as razias causadas pela tuberculose, que por quatro vezes, só na nossa família, levou o avô Valentim a percorrer o caminho do cemitério para enterrar os filhos.

 

A geração que assumiu a gestão local, neste período europeu em que nos encontramos, deu passos largos na melhoria da qualidade de vida, a governar a parcela nacional mais próxima dos centros da União, mas ainda a mais distante em termos de acessibilidade. Geração muito apoiada pela rede do ensino, em que destacaria o Politécnico de Bragança e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas a sofrer agora, como toda a interioridade, o despovoamento, a quebra da natalidade, a debilidade do crescimento económico que não oferece condição suficiente de fixação dos diplomados, com o agravamento que deriva da crise financeira do Estado que obriga  a meditar, cada vez que a invocada racionalidade gestora o leva a retirar presença e serviços, se não é a batalha da interioridade que perde forças e espaço de intervenção.

 

O Reino Maravilhoso vai exigir a mobilização geral para que estes efeitos colaterais de uma mudança global das circunstâncias em que o país se insere sem escolha não atinja as raízes, não afecte o alicerce que é a pátria pequena dos que são obrigados a partir, dos que ficam, e dos que serão os herdeiros dos novos erros e acertos.

 

Ao longo dos tempos os portugueses foram emigrantes para todas as lonjuras da sua terra natal, por vezes, como nós, apenas dentro do próprio país, outras porque a pobreza da vida incita a procurar diferentes promessas de abundância, também porque o Estado, deitado a longe, para a gesta das descobertas e segurança e povoamento das conquistas, organizava a transferência nem sempre consentida. O fim do império, em 1974, fez convergir toda a diáspora, sem diferença das causas e razões da partida, para a condição hoje de Nação peregrina em terra alheia.

 

O regresso foi de regra um projecto guardado na memória dos afectos, mas, com frequência, os filhos nascidos nas terras de acolhimento foram a âncora que fixou para sempre os pais, e assim foram crescendo, nas cinco partes do mundo, as comunidades de descendentes de portugueses, que em geral não ignoram as origens, embora alterando a imagem que passa de geração em geração. É assim nas duas costas dos EUA, é sobretudo assim no Brasil, também assim em vários lugares do Oriente.

 

O que tudo faz nascer duas distâncias do emigrante em relação à origem. Primeiro a dolorosa distância física que não deixa esquecer os amigos de infância, o arvoredo e o cheiro dos campos, nem permite voltar a puxar a corda do sino, andar na procissão, comer o caldo de couves temperado com unto, mais as amoras que tingem as mãos, e o pão de centeio ou de trigo.

 

Mas depois cresce para muitos a distância da memória, isto é, a memória que se distancia no tempo e vai apenas guardando registos selectivos, piedosa no embelezar das lembranças que não conservam nem as dores da infância, nem o envelhecer penoso dos pais e avós, sacrificados ou à decisão de ficar ou à impossibilidade de partir.

 

Dos vários longes, ou físicos ou das memórias, à medida que os horizontes se alargam, e que as novas dependências e exigências se tornam mais densas, o sentimento das raízes parece vir socorrer a defesa da identidade originária, e lembrar a pátria pequena que é a terra de origem, o município que parecia tão vasto, as artes populares que primeiro educaram os gostos, os saberes ancestrais para lidar com a saúde e a comida, para animar os festejos, para fiar e tecer, para dar formas à madeira e à pedra, para colher o mel ou fabricar os enchidos, e afinar os cuidados com manter os velhos muros, as antigas casas, as acolhedoras esquinas, para preservar ou recriar o ambiente que acolha a mudança sem perder as origens, que reinvente um futuro com história, e abra os braços a todas as memórias, as memórias dos que partiram e voltam, dos que não voltam mas não esquecem, dos que ficaram e garantiram a identidade, e com ela a esperança, a ternura, e o consolo dos reencontros. A Nação peregrina em terra alheia deve a estas devoções dos que ficaram, governando, defendendo e revigorando as comunidades locais, e afeiçoando a sua circunstância, que a identidade de todos e de cada um não se dilua no turbilhão do globalismo que nos visita para ficar.

 

E nós já estamos no fim da nossa responsabilidade. Aquilo  em que nos resta meditar é, se pela nossa intervenção, algum sal salgou a terra e se alguma terra ficou salgada.

 


Posted at 16:10 by ntmad
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2007.05.12
EDITORIAL DE MAIO 2007


 

Caros Amigos e Associados!

 

Aí está, de novo, a regionalização, pela mão do Sr. Deputado Mendes Bota, que, sem revelar novidades de fundo, se apresenta, de certo modo, equivoca/ambígua, pois não revelou as regras da União Europeia que, sobre esta matéria, tem linhas e limites rígidos, nomeadamente, as que respeitam à população e território.

 

A este propósito, há mais de um ano, a CTMAD enviou um ofício ao Sr. Presidente da AMTAD – Associação de Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro a convidá-lo para, em conjunto, relançarmos o debate sobre o tema para o que se convidariam os nossos melhores da Região, alguns dos quais prontamente se disponibilizaram.

Sem a oportuna resposta ficámos tristes.

Como não perdemos a esperança do debate renovamos o pedido e, desta vez lá veio uma urbana resposta que, sem surpresa nossa, não deu provas de real interesse e concretização do encontro.

 

Certo é, porém, que, mais que uma regulamentada Regionalização formal e institucionalmente modelada, há que substanciar a Região com medidas proactivas, propiciadoras do desenvolvimento da iniciativa privada de todos em geral e de preferência para e por aqueles que lá vivem e/ou que a amam, medidas essas que, entre outras, para apostar na eficiência e eficácia terão de ver: 1) com a redução de impostos/taxas locais e nacionais, 2) agilização de meios de licenciamento de toda a natureza, 3) medidas de crédito aliciadoras, especialmente para as industrias não poluentes, 4) mecanismos de concreta e exigida abertura aos mercados nacionais e estrangeiros já que à globalização podemos fugir, 5) intensiva e adequada formação profissional intensiva, profundamente diferente da que se fez a seguir à adesão de Portugal à CEE, 6) definição de objectivos regionais e nacionais no âmbito de cada uma das iniciativas com sanções éticas e profissionais para os dirigentes que as não alcancem, 7) apresentação pública dos resultados das empresas em cada uma das actividades.

 

As medidas de crédito, para além das que o Estado tomasse através dos seus próprios mecanismos financeiros, poderiam ser prosseguidas através dum Banco de Investimento a formar com os contributos das centenas de milhares de Trasmontanodurienses que no País e no estrangeiro alimentam, sem contrapartida aliciante, os actuais bancos portugueses que, com excepção de um o BPN – Banco Português de Negócios, olham para a região apenas pela lupa do lucro imediato.

E o saber financeiro não nos falta.

 Temos administradores experientes, quer sejam os da diáspora marrana que, em Paris, Amesterdão, Londres e Nova York se notabilizaram, quer sejam os que actualmente dirigem bancos da nossa praça. Temos directores e empregados administrativos da banca, que nos permitem, com a devida organização, disciplina e o muito trabalho a que estamos habituados, podermos fundar uma instituição desta natureza que se torne num pólo mobilizador e multiplicador das energias ainda existentes e, sobretudo, nos permita estancar a desertificação e, mais do que isso, que se torne num dinâmico facto de inversão desse cancro da regionalização.

 

Aos leitores parecerá esta ideia romântica, mas não me digam que é inane ou irrealizável.

 Basta que os poderosos da nossa Terra, que os tem, dêem as mãos, que queiram ainda ser mais ricos e, mais do isso, queiram enriquecer uma região e o seu Povo.

O resto virá por acréscimo, formar-se-á um dinâmico e imparável movimento que, com disciplina, credibilidade, autoridade, segurança e confiança, arrebatará todos os trasmontanodurienses para esta afirmação de vida.

 

Neste domínio a CTMAD pode fazer muito, pode animar os seus associados e amigos, pode sensibilizar as nossas casas espalhadas pelo mundo, pode suscitar o interesse da nossa diáspora de primeira, segunda e até terceira gerações, enfim pode ajudar a levantar bem alto o nome de TRÁS-OS MONTES E ALTO DOURO como Terra do Leite e do Mel onde dá gosto viver.

Mas, para isso, os associados da Casa terão de ser os primeiros a dar o exemplo, terão desde logo de pagar as quotas atempadamente – a Casa precisa tanto – terão de vir à Casa – agora que já elevador desculpas não há – terão de participar nos seus eventos culturais e não só, terão, para já, de comparecer massivamente na palestra do Sr. Professor Adriano Moreira, que noutro local do jornal damos conta, – não é todos os dias que há uma oportunidade destas e qualquer universidade não recusaria esta participação.

Amigos e associados se és Trasmontanoduriense e honras a tua Terra ama-a do teu modo e se te revês na nossa Casa comparece, traz os amigos também!

 


Posted at 07:08 by ntmad
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2007.05.11
OS PROBLEMAS DIFÍCEIS DOS TRANSMONTANOS DEVEM SER DESAFIOS PARA PORTUGAL

 

A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro convidou o Professor Doutor Adriano Moreira, talvez o transmontano vivo mais prestigiado, que sempre pautou a sua vida na defes dos Direitos do Homem e não por fanatismos ou carreirismos seguidistas, respeitando o pensamento e a acção dos adversários políticos que não tinham, nem têm a mesma visão de melhorar a condição da vida humana, - para proferir uma conferência a realizar no Palácio Galveias, Campo Pequeno, em Lisboa, no dia 18 de Maio, às 18,30 horas, subordinada ao tema: "INTERIORIDADES E DESAFIOS PARA PORTUGAL".


Relacionado com este assunto disse um dia o anunciado conferencista:


"O conceito de Reino Maravilhoso, que devemos a Torga, tem, certamente origem na beleza da paisagem que muda harmonicamente com as estações, e depois com a amorosidade que para sempre envolve a relação da terra com os seus filhod, mas os custos da interioridade foram enormes ao longo dos séculos, nesta região que foi sempre do Reino político português, sem guerras de conquista.

Os progressos evidentes das últimas décadas europeias não eliminaram todos os custos.


A geração que assumiu a gestão local, neste período europeu em que nos encontramos, deu passos largos na melhoria da qualidade de vida, a governar a parcela nacional mais próxima dos centros da União, mas ainda a mais distante em termos de acessibilidade. Geração muito apoiada pela rede do ensino, em que destacaria o Politécnico de Bragança e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas a sofrer agora, como toda a interioridade, o despovoamento, a quebra da natalidade, a debilidade do crescimento económico que não oferece condição suficiente de fixação dos diplomados, com o agravamento que deriva da crise financeira do Estado que obriga a meditar, cada vez que a invocada racionalidade gestora o leva a retirar presença e serviços. se não é a batalha da interioridade que perde forças e espaço de intervenção.

O Reino Maravilhoso vai exigir a mobilização geral para que estes efeitos colaterais de uma mudança global da circunstância em que o país se insere sem escolha não atinja as raízes, não afecte o alicerce que é a pátria pequena dos que são obrigados a partir, dos que ficam, e dos que serão os herdeiros dos novos erros e acertos.

O regresso foi de regra um projecto guardado na memória dos afectos, mas, com frequência, os filhos nascidos nas terras de acolhimento foram a âncora que fixou para sempre os pais... (à espera dos filhos). (Estes), primeiro viveram a dolorosa distância física que não deixa esquecer os amigos de infância, o arvoredo e o cheiro dos campos, nem permite voltar a puxar a corda do sino, andar na procissão, comer o caldo de couves temperado com unto, mais as amoras que tingem as mãos, e o pão de centeio ou de trigo.

Mas depois cresce, para muitos, a distância da memória. isto é, a memória que se distancia no tempo e vai apenas guardando registos selectivos, piedosa no embelezar das lembranças que não conservam nem as dores da infância, nem o envelhecer penoso dos pais e avós, sacrificados ou à decisão de ficar ou à impossibilidade de partir.


"...para preservar ou recriar o ambiente que acolha a mudança sem perder as origens, que reinvente um futuro com história, e abra os braços a todas as memórias, as memórias dos que partiram e voltam, dos que não voltam mas não esquecem, dos que ficaram e garantiram a identidade, e com ela a esperança, a ternura, e o consolo dos reencontros. A Nação peregrina em terra alheia deve a estas devoções dos que ficaram, governando, defendendo e revigorando as comunidades locais, e afeiçoando a sua circunstância, que a identidade de todos e cada um não se dilua no turbilhão do globalismo que nos visita para ficar." Fim de citação. 

A Direcção da CTMAD convida e recomenda a participação de todos os transmontanos que reivindicam melhor qualidade de vida para os que vivem e trabalham nas Terras de Além Marão.


Posted at 23:02 by ntmad
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2007.05.07
D. AFONSO, 1º DUQUE DE BRAGANÇA


À sugestão do Director do “NTMAD”, que  me lançou o desafio de escrever algo sobre Inês Pires, às vezes também chamada Inês Peres, Inês Pires Esteves e até Inês Fernandes, respondi que o Abade de Baçal já escreveu muito e muito bem sobre essa e outras personalidades marcantes do Distrito de Bragança. Perguntou então o Dr. Nuno Aires: “E quem lê o Abade de Baçal?”

 

A pergunta ficou a ressoar-me no ouvido e aqui estou a tentar alinhavar duas ou três ideias sobre a dita figura, ou melhor dizendo, sobre o facto de ela ter sido a mãe de D. Afonso, 1º Duque de Bragança, fundador da Casa de Bragança, de onde sairiam D. João IV, todos os reis da 4ª dinastia, inúmeros príncipes e princesas, alguns deles figuras reinantes em casa reais europeias.

 

Mas antes de continuar a escrever mais seja o que for, quero deixar bem claro que não tenho formação em História. Sou uma leiga no assunto. Digamos que sou uma curiosa .O meu interesse por acontecimentos, personalidades, tradições, lendas, usos e costumes ligados a Trás-os-Montes apenas traduz o meu sentimento de pertença à nossa região e o meu afecto pelo torrão em que nasci e fui criada.

 

Posto isto, voltemos a Inês Pires. É de crer que o seu nome fosse realmente Pires ou Peres pois, chamando-se seu pai Pêro  (ou Pedro)  Esteves – parece que judeu converso e sapateiro de profissão -- é lógico que o patronímico Peres ou Pires tenha passado para a filha . (Damião de Góis situa-o na Guarda, mas outros cronistas dizem-nos que era de Portel ou, mais provavelmente, de Veiros, no Alentejo. É em Veiros, na Igreja de N.ª Sr.ª do Mileu, que se encontra o túmulo de Pêro Esteves).

 

Nas suas caçadas por terras de Além-Tejo, terá o jovem Mestre de Avis visto a linda alentejana e ter-se-á perdido de amores por ela. Inês Pires correspondeu-lhe e dessa ligação nasceu no castelo de Veiros D. Afonso, em 1377 ou 1380. (Alguns documentos apresentam a data de 1370, como o ano em que D. Afonso nasceu. Mas, tendo o Mestre de Avis nascido em 1357, é algo estranho que tenha sido pai aos 13 anos…).

Conta a lenda que Pêro Esteves, pai de Inês Pires, e portanto avô materno de D.Afonso, teve um desgosto tão profundo ao ver que a filha era amante do Mestre de Avis, que nunca mais cortou as barbas. Daí a sua alcunha de o “Barbadão”.

 

Agora passemos à História: após a morte de D. Fernando e o interregno que se lhe seguiu e após vários acontecimentos relevantes, o Mestre de Avis é aclamado Rei de Portugal, como D. João I, em Abril de 1385. Em Agosto desse ano trava-se a decisiva Batalha de Aljubarrota que garantiu a independência de Portugal. Em 1387 D. João I casa com D. Filipa de Lencastre.  Camões chamou aos Príncipes, seus filhos, a “ Ínclita Geração”.

Mas o primogénito de D.João I foi, de facto, D.Afonso,. El-Rei reconheceu-o como filho e para ele contratou excelentes mestres que lhe deram uma educação primorosa..

Aos 21 anos, em 8 de Novembro de 1401, casou D. Afonso com D.Beatriz Pereira de Alvim, filha única do Condestável D. Nun’Álvares Pereira. Era D.Beatriz uma herdeira opulenta e trouxe como dote não só títulos, como também uma das maiores fortunas da Península Ibérica. D. Afonso tornou-se 8º Conde de Barcelos e  um dos homens mais ricos e poderosos de Portugal.

Após a morte de D. João I, subiu ao trono D. Duarte, cujo reinado durou apenas 5 anos. Seu filho, D.Afonso V, era ainda criança. Por isso, foi nomeado Regente do Reino seu tio D.Pedro, o das “5 Partidas do Mundo”, assim designado por ser um homem muito viajado e muitíssimo culto. Todos os documentos o dão como muito “ avisado” e bom orientador das “cousas do reino”.  Ou seja, um grande regente.

 

No entanto, parece fora de dúvidas que, por inveja, D.Afonso iniciou uma teia de intrigas junto do rei-menino, seu sobrinho, contra o Regente D. Pedro, seu meio-irmão. Alguns cronistas e historiadores falam do seu carácter malévolo e desmesuradamente ambicioso.  As relações entre D. Pedro e D. Afonso não eram, pois, as mais cordiais. Todavia, num gesto de boa vontade e para apaziguar a os ânimos,  D.Pedro concedeu  a D.Afonso em 1442 o Ducado de Bragança. ( É de salientar que esta doação representava uma grande honraria e um grande senhorio, uma vez que, antes deste ducado,  apenas existiam dois em todo o reino: o de Coimbra e o de Viseu, criados por D. João I para os filhos D. Pedro e  D. Henrique, respectivamente) .

 

Porém, nem o Ducado de Bragança conseguiu calar a ambição e a inveja de D. Afonso. Continuou intrigando e conspirando junto do rei e talvez tenham sido as suas intrigas que, em 1449, terão conduzido à fatídica Batalha de Alfarrobeira, em que D. Pedro e alguns fieis seguidores foram chacinados. (Todos nos lembramos ainda da famosa frase que Alexandre Herculano pôs na boca do grande amigo de D. Pedro, D. Álvaro Vaz de Almada que, já por terra, com a chusma a cair sobre ele, exclamou: “Fartar , vilanagem!” ). [V. “Lendas e Narrativas”]  Aparentemente, D. Pedro morreu em combate, mas não está posta de parte a hipótese  de que a sua morte tenha sido um assassínio disfarçado na batalha. (Enfim, uma negríssima mancha na nossa História!)

O acto foi reprovado por todas as casas reais europeias que tinham D. Pedro em elevada consideração.

 

Com a morte de D. Pedro, D.Afonso de Bragança ganha cada vez mais influência e poder sobre o rei que lhe concede importantíssimas mercês e lhe confia a regência do reino enquanto ele, rei, se demora nas suas campanhas no Norte de África.

Por esta altura a Casa de Bragança era tão forte e poderosa que, em muitos aspectos, excedia a própria Casa Real.

As coisas vão mudar quando D. João II sobe ao trono. Farto da ganância, das intrigas e conspirações dos Braganças, o Príncipe Perfeito decidiu pôr cobro aos seus actos pouco dignos. Perseguiu-os ferozmente, confiscou-lhes bens e reduziu-lhes o poder. (Mas isso seria outra história).

 

Para terminar, falta dizer que D.Afonso, 1º Duque de Bragança, morreu em 15 de Dezembro de 1461 no seu Paço de Chaves e o seu túmulo encontra-se no Convento de S. Francisco, nesta cidade.

Também em Chaves faleceu, em 1412, sua primeira mulher, D. Beatriz Pereira de Alvim.

Quanto a Inês Pires, foi trazida para Lisboa, tendo vivido no Paço dos Infantes, numa dependência do qual estavam instaladas as comendadeiras do Mosteiro de Santos-o-Velho, de que terá sido Superiora.

 

 

Nota: Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a todos os leitores que , eventualmente interessados por este tipo de artigos , queiram acrescentar, completar ou corrigir a informação produzida.

 

 

 

 

FONTES:

Joel Serrão, “Pequeno Dicionário de História de Portugal”,  Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976

Joaquim Veríssimo Serrão , “História de Portugal” Vol. II: “Formação do Estado Moderno” (1415 – 1495 ), 2ª ed. , Lisboa, 1978

Abade de Baçal: Memórias Arqueológico-Históricas  do Distrito de Bragança” 2ª ed,, Bragança, 2000

Jean-François Labourdette, “História de Portugal”,  Publicações  D. Quixote, Lisboa, 2003

 

Informação colhida na Internet, por ex. : em  O Portal da História ” e  em “GENEA”. 

 


Posted at 06:08 by ntmad
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2007.05.05
À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS - 2ª Parte*

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, sentiu que podia dar novo salto na profissão e, sem dar a conhecer os seus desejos, começou a fazer planos à vida, sem esquecer que ali o Sr. Flamet seria sempre o mestre e ele nuca passaria do garçon-aprendiz, um empregado, confinado ao salário da semana, que mal daria para viver.

 

Certo dia, pela manhã, verificou que Mestre Flamet, a um cliente mais habitual, alto, magro, sempre vestido a preceito, sapatos envernizados, gravatas a condizer com a camisa e o facto, tratava amavelmente por Sr. Isidore Culot e, com cerimoniosa atenção, oferecia o Sr. Constantin para lhe fazer, na hora, mais uma perfumada camélia branca.

 

Constantino, feliz por servir tão ilustre cliente e antevendo um potencial homem de negócios capaz de o ajudar, de imediato deitou mãos à obra e, num ápice, apresentou-lhe a mais perfumada e fresca camélia que siderou o Sr. Isidore.

Espantado com a elegância das pétalas, o perfume, a arte, a rapidez, com que viu aparecer a camélia, exclamou incontidos elogios que o Sr. Flamet nunca ouvira.

Cenas destas se repetiram até que um dia, já em conversa a sós com o nosso Constantino, o Sr. Isidore, entre dentes, lá lhe disse:

- Sr. Constantin está na hora de ser alguém, de se estabelecer por sua conta.

Constantino, sem pestanejar, de pronto lhe respondeu:

- Sr. Isidore, isso é bom de dizer, mas, e o dinheiro para montar uma oficina?

Homem, não hesite, faça-se à vida, descubra uma loja central que o resto fica comigo.

O nosso Constantino, oito dias depois, anunciava ao Sr. Flamet o seu propósito de se despedir ao mesmo tempo que lhe agradecia as oportunidades que lhe dera.

O Sr. Flamet, chocado com a notícia, balbuciou-lhe o aumento de ordenado, melhores instalações e condições de trabalho, casa por conta do patrão, enfim uma assinalável melhoria.

Constantino, decidido, repetiu os agradecimentos e anunciou-lhe que se ia estabelecer, por conta própria, pois ali não passaria de um eterno aprendiz.

Lamentando o sucedido mas compreendendo a ambição de Constantino acabou o Sr. Flamet por agradecer a atenção e o carinho que recebera e desejou-lhe a melhor sorte.

E é assim que, em 1837, o nosso Constantino aparece estabelecido em Paris, no n.º 59 da Bourbon-Villeneuve, onde permaneceu até 1844.

 

Paris rendeu-se à arte de Constantino, a sua fama ultrapassou fronteiras, as casa reais encomendavam-lhe as flores e, pelas ruas, frequente era verem-se passar os ramos de flores de Constantino ou as camélias nas lapelas dos casacos que passara a ser grande moda.

A oficina tornava-se pequena para tanta encomenda e os empregados já não eram capazes de satisfazer as encomendas.

 

Em 1844, após o desgraçado tufão que arrasou a ilha de Guadalupe, nas Antilhas, sob administração francesa, A rainha Maria Amélia, perante tal desgraça, resolveu lançar uma quermesse com cujas ofertas seriam organizados leilões para angariar fundos para os sobreviventes.

Entre as muitas ofertas destacavam-se as grinaldas e os ramos de Flores feitos por Constantino para além de outras obras de arte com que fidalgos e burgueses ajudaram a por em pé tal iniciativa.

 

As rosas, os amores-perfeitos, as camélias, entrelaçadas em ramos, ganhavam, com as respectivas decorações, uma beleza e brilho tão impressionantes que as senhoras, sem olhar a preços, as disputavam no animado leilão.

 Todas queriam as flores e os perfumes de Constantino e uma delas, sem querer, retirou uma pétala duma flor e, levando-a ao nariz e parecendo-lhe natural, extasiada, gritou:

Maravilha, maravilha! Viva Constantino, Viva o Rei dos Floristas ao que todos os presentes em uníssono repetidamente aplaudiram.

Correu célere a notícia e, no dia seguinte, pela manhã, os jornais do dia anunciavam em grandes parangonas o acontecimento.

A rainha Maria Amélia, ante tão grande ovação, encantada pelos ramos de flores que antes vira e tocara, acabou, nesse mesmo ano de 1864, por enviar à loja do nosso Constantino o mensageiro habitual para encomendar a coroa de flores de laranjeira que a princesa Dona Clementina haveria de levar no dia do casamento.

Constantino, emocionado pela opção da Rainha e antevendo o que isso representava, de imediato respondeu ao mensageiro que no dia seguinte seria ele próprio que levaria duas coroas para sua alteza escolher a que mais gostasse.

Os empregados, em uníssono, grande ovação prestaram a Constantino e mais uma vez exclamaram: Mestre, mestre, grande mestre, o Rei dos Floristas

Lequerel, também sócio e contabilista da sociedade, depressa se abeirou de Constantino e, sem mais, ripostou-lhe:

- Mestre, uma rainha só pode encomendar flores a um rei, ao nosso Rei dos Floristas!

Bom, bom, meninos, vamos ao trabalho, amanhã começa um novo dia, assim o creio.

 

No dia seguinte, como prometera, apresentou-se Constantino no palácio e, conhecedora da sua presença, decidiu a rainha receber ela própria o grande Constantino.

Ante tão prestigiante atenção, Constantino, mal viu a rainha entrar no salão, depressa se abeirou e, de joelho em terra, como era hábito nesses tempos, entregou à rainha Maria Amélia duas delicadas grinaldas de flores e botões de laranjeira, uma, artificial, feita pelas suas mãos, a outra de flores naturais igualmente feita por si.

Mas, Mestre Constantin, só se encomendou um ramo de flores!

- Majestade, decidi fazer duas coroas para que possa escolher e, se me for permitido, deixarei as duas e amanhã virei buscar a que for rejeitada.

No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:

Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

 

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

 

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:

Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

 

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:

- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores

- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?

- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.

 - Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.

 - Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?

- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!

- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.

E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!

- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?

O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:

- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

 

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!

- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

 

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de Santo Agostinho onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.


* Clique aqui para ler a 1ª parte deste artigo 

   Clique aqui para ler a 3ª parte deste artigo

 


Posted at 07:20 by ntmad
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A CASA EM MOVIMENTO

Como tinha sido anunciado no último jornal da nossa Casa, foi lançado mais um livro de um autor Transmontano, Dr. Flávio Vara, com o título "A Bem Soada Gente".


Pode dizer-se que este lançamento foi um sucesso, por várias razões: 1º porque juntou muita gente, mesmo sem serem sócios; 2ºporque se vê o esforço do autor e da editora em convocar pessoas de interesse e principalmente amigos do autor e familiares; 3º pela oportunidade que têm os amigos e os associados de conviverem uns com os outros, sempre com a possibilidade de fazer novos sócios. Gostei de ver como os amigos se juntaram e conviveram. Foi mesmo um êxito como não se via há muito. O livro já de si dizia alguma coisa e a curiosidade natural fez o resto. Sobre o livro transcrevo um comentário que poderia servir de chamariz, mas acaba por servir de ressonância: " O livro A BEM SOADA GENTE é um conjunto de sátiras que, na linha das cantigas de escárnio e mal dizer e no registo mordaz dos "casamentos" e do "serrar da velha" transmontanos, têm por alvo personagens e actos da nossa cena político-social recente, não poupando mesmo alguns "a bem soados" caramonicos que refunfunegam lá por terras do Nordeste.


Organizadas em seis grupos – De Primeira apanha; Súcia Lista; Soaródia; Família de (Ex)Posição; Tarrenego; Caramonicos – através deles desfilam, com nomes próprios, boys outras espécies faunísticas muito perigosas e, Deus nos acuda, em vias de expansão".


Apresentou o livro e o autor o Prof. Dr. Raul Rosado Fernandes. Bem, se o livro é cómico, o apresentador não podia ser mais bem escolhido, pois que os dois juntos dariam uma verdadeira comédia sobre a vida portuguesa na sua mais genuína actualidade. Foi  um mimo aquilo que ouvimos e pudemos desfrutar num curtto espaço de quase duas horas. Por isso vamos publicar na íntegra aquilo que o apresentador disse, mais do que referir ou resumir tem interesse geral e serve também  para demonstrar o valor das obras que a Casa vem apresentando. Falou também o dr. José Vicente por conta da Roma Editora que referiu que o livro editado é para ir lendo e saboreando a pouco e pouco. Por fim falou o próprio autor, que se revelou uma verdadeira surpresa, sobretudo pelo humor e ironia que pôs em tudo quanto nos disse. Em nome da Casa e à guisa de apresentação abriu a sessão o Vice-Presidente da  Prof. Dr. Jorge Valadares.


Só sei dizer que a Nossa Casa foi muito pequena para tanta gente ilustre. Venham mais apresentações e mais livros e a cultura poderá aumentar com toda a certeza.  .

 

Segue-se o texto do Apresentador de A BEM SOADA GENTE.


Conheci o nosso A. certamente há mais de quarenta anos, numa época que culminaria com as greves estudantis de 1962, ano em que me doutorei, no meio de choro, de ranger de dentes e de medo. Era o início da queda do Império, depois do desastre de Goa e do início do terrorismo em Angola. Era meu aluno, discreto, franco e estudioso. Nem os acontecimentos o impediram de fazer uma tese de licenciatura sobre os pastores, as ninfas e a Natureza e cabras das Éclogas de Virgílio, o que lhe valeu um prémio bem merecido.


Era um refugiado de Coimbra, pois sobre a sua cabeça pendia um anátema mortal, porque tivera a coragem de denunciar em livro as brutalidades boçais da praxe coimbrã e dos seus machões.


Após a licenciatura foi convidado para assistente, até que o seu feitio mordaz o levou a dar uma valente dentada em diário lisboeta no "copianço" de que tresandava  a Faculdade de Letras em que trabalhava. Foi em breve"saneado", como seriam anos depois, colegas seus e meus no seguimento do 25 de Abril. Desde então nunca mais nos vimos, até que outro dia me chegou um e-mail: Quem era? O próprio Vara, que me perguntava sem vergonha se dele ainda me lembrava. Claro, retorqui-lhe de imediato, pois dele nunca me tinha esquecido, pela sua simplicidade,  coragem e saber. São virtudes que se não compram em supermercados e que por aí não abundam.


Desafiou-me então para apresentar este livro, em trovas populares que seguem a máxima do nosso colega de há dois mil anos Juvenal, poeta romano, que afirma que era a rir que se castigavam os costumes, os maus costumes, enfim a malandragem. Segue o nosso autor essa veia satírica tão antiga, como Aristófanes, Marcial, Os Frades Vagantes, As Cantigas de Escárnio e de Mal-Dizer, de Bocage e de um recente Alexandre O'Neill, só que em Vara o verso é a quadra popular, aquela que enche o ouvido, e que até podia ser trauteada se a viéssemos a cantar.


O linguajar é antigo e moderníssimo, não se pejando o A. de misturar rimas portuguesas com vocábulos ingleses da moda, levando a ironia fescenina a pontos muito altos sem contudo atingir plenamente o que já dificilmente teria a licença da comunidade de cidadãos. É virulento, não gosta do exagero, nem da hipocrisia, tão pouco lhe agrada a desvergonha. Afinal é um transmontano não libertino de não deixar passar o Marão, embora ela lá exista, a pantomina que por aí reina. Mas não pensem que o Marão escapa: até aí dá sacudidelas nos casacos de alguns maraus, nas páginas de alguns escritos, no ridículo das criaturas que o rodeiam. Mas não é um moralista, é um trocista, nem se pretende armar num Ser virginal que de pecado nem sequer sabe se o tem "original".


Diverte-se a passar em revistas personagens aparentemente importantes da nossa praça e a dar-lhes pontapés no traseiro, por intermédio da sua pacífica esferográfica, ou caneta de tinta permanente, não sei. E não se cansa: alinha as personagens e passa-as no passador da sua língua endiabrada e da sua mente quase perversa. E nós, leitores, acompanhamo-lo, gostaríamos de escrever e dizer o mesmo, se tivéssemos ganas e coragem para o fazer.


Flávio Vara, com o nome imperial dos Flávios  de Roma, é a voz do povo indefeso e que tem medo de falar, é a voz que clama no deserto, mas que pelo menos vai ser lida  e ouvida por quem tiver a sorte de ter nas mãos o seu livro. Merece a pena, porque o estilo com que não se cansa de brincar inventando associações de palavras com resultados surpreendentes dá-nos enorme prazer, e o mal-dizer corresponde exactamente, mas direi quanto a mim só parcialmente, o nosso mal-pensar.


Bem haja o nosso transmontano da gema que me proporcionou alguns momentos de galhofa, momentos tão raros em tempos tão turvos sem que se espere bom tempo. Foi o que me disseram os Serviços Meteorológicos. Mas afinal estamos na Primavera e temos de pensar no início do nosso degelo.


Posted at 07:09 by ntmad
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COMIDA SIMPLES, BOA COMIDA…

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O conceito de simples em comida, hoje em dia, relaciona-se com conceitos de modernidade que naturalmente, e de forma empírica, já eram postos em prática noutros tempos; reagiam espontaneamente à Natureza. Hoje temos que reflectir, e aprender, para estar em sintonia com a Natureza. Males necessários da globalização galopante, daí o esforço (em contra ponto) necessário pela biodiversidade. Hoje, a luta permanente pelo que é autêntico.
Os conceitos de simples, mesmo nas artes culinárias, estão associados a conceitos de reflexão intelectual, capazes de ditarem modas. E com as artes culinárias desenvolveu-se a gastronomia. O que é simples é bom. O que é simples é fácil de aprender a fazer, e é mais fácil de aperfeiçoar.


O percurso da alimentação no mundo e depois de tantas gerações passou naturalmente pelo aparecimento ou invenção da cozinha. É este facto que vem alterar definitivamente, na história, as grandes mudanças sociais. A comida deixa de ter uma função apenas de sustento para criar circuitos de produção e distribuição. Em simultâneo as sociedades associam à alimentação rituais e magias, que perduram ainda nas sociedades de hoje.


Com a aprendizagem, e necessidades criadas pela nova produção alimentar, começam a distinguirem-se novas cozinhas. Assistimos assim à revolução do pastoreio. E como consequência, ou em paralelo, desenvolvem-se as actividades relacionadas com a domesticação e criação animal, selectiva.

Não podemos esquecer que hoje em dia temos que analisar os grandes movimentos, ou tradições, alimentares numa perspectiva cultural. E quando falamos em cultura temos obrigatoriamente que sentir as vertentes: artística, religiosa, geográfica, económica e científica.


A agricultura, com os avanços civilizacionais, desenvolveu-se. 8.000 anos a.c. encontramos técnicas muito desenvolvidas de irrigação do Nilo, e temos referência de produtos  alimentação em número muito elevado e que muitos desses produtos só chegam à Nova Europa depois das Descobertas. A ascensão e queda de algumas civilizações clássicas, revelam novos produtos e hábitos. Mas também atrasam a divulgação de outros pela necessidade de destruição da história pelo avanço das forças de ocupação.


A comida aparece-nos então como um meio e um índice de diferenciação social, desde a época medieval até ao século XX. Haveria designadamente dois tipos de alimentação: a de elite, palaciana ou burguesa e a do povo, a das grandes massas.

Com as Descobertas temos uma nova actividade em grande movimento no Mundo. O comércio de longa distância vem fazer aparecer os novos produtos e a partir daí o aparecimento do primeiro conceito de cozinha de fusão. As trocas intercontinentais obrigam a um novo intercâmbio de culturas que ultrapassam a alimentação. E os novos movimentos de mudança de mentalidades.


Chegados ao nosso tempo, e com a industrialização mundial, fomos obrigados a uma revolução ecológica, e aos reconhecimentos de uma agricultura biológica.

Viajámos de uma cozinha primitiva, a uma cozinha moderna ou evoluída, passámos pelo fast-food, depois pela cozinha científica e molecular, e parece querermos voltar à alimentação primitiva mas cuidada. O regresso às coisas simples.


Mesmo no nosso tempo não apagamos rapidamente as marcas da tradição alimentar. Certo que temos a informação, e modo de agir mais rápida. E temos mais opções. Mas também temos o tempo mais controlado e outro tipo de ambições. E exigências profissionais e sociais.


Quando nos anos 70 surgem os primeiros conceitos de Nouvelle Cuisine surgem logo os conservadores, e clássicos da época, reclamando a necessidade de manutenção das tradições. Precipitaram-se os tradicionalistas pois os inventores da nova cozinha, contemporânea, criam uma nova cozinha com base em princípios fundamentais associados a princípios de valorização dos produtos, simplificação da técnica culinária e eliminação de complementos inúteis.


Assumo que só há dois tipos de cozinha: a boa e a má. Independentemente das categorias regionais, nacionais ou internacionais.


Mas afinal o que faz a nova cozinha? Começa com o conceito de cozinha do mercado, quer dizer, utiliza os produtos que surgem na época que a Natureza naturalmente os produz, o que significa a época em que eles, produtos, têm o melhor sabor. Depois valorizar as cozinhas regionais, evitando complicações necessárias e reduzindo os tempos de cozedura. Associado a este tema surge também o conceito das cozeduras exactas que significa que cada produto tem um seu tempo, e diferenciado, de cozedura. Evitam marinadas e molhos pesados. Tem em conta a componente dietética e sente a necessidade de inovar constantemente.


Caminhamos portanto para uma cozinha mais simples, mais autêntica, com uma preocupação de valorização do produto de base.


Não esqueçamos que recentemente Dan Barber declarou que "o futuro da restauração no Mundo" será dos restaurantes que produzam os seus próprios produtos para o menu, em sistema de auto-suficiência e em rigor ecológico. Estamos a falar de gastronomia de elite??? Será a exigência do mercado???

E que numa matança de porco, come-se tudo. Mas de forma simples.


Hoje cada vez mais queremos apreciar o autêntico. O simples e sem constrangimentos.

 

BOM APETITE!

 


Posted at 06:48 by ntmad
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LANÇAMENTO DO LIVRO DE AUGUSTO ABREU LOPES CEPEDA

"PARAGENS DE OUTROS PERCURSOS E

 NOTAS BIOGRÁFICAS DE UM TRANSMONTANO"

 

Local: Sede da CTMAD; Data / Hora: 18 de Junho (2ª feira); 18.30h

Apresentação: A cargo do Prof. Doutor Amadeu José Ferreira


Embora de há muito radicado em Penafiel, o Autor é transmontano de gema, natural de Argozelo, concelho de Vimioso, terra de gente laboriosa lembrada pelos curtumes e volfrâmio.

 

A juventude e os primórdios da vida profissional são, contudo, passados em Lisboa e é dessa, já algo distante, época que se associa à CTMAD preservando, até à data, essa condição que nos honra.

 

Expressivo e profícuo escritor, historiador, sempre dedicado às artes e cultura regionais, Augusto Abreu Lopes Cepeda povoou a sua vida de benemerência, espelhada na participação activa em variadas instituições de solidariedade social de renomeada importância e influência.

 

Este seu livro é mais um repositório das suas deambulações em Portugal e no estrangeiro, uma proposta, por vezes interventora, outras simplesmente analítica, de abordagem a locais e temas que obrigará o leitor a fazer a sua opção, enfim uma obra que não nos deixará indiferentes perante o mundo que nos rodeia.

 


Posted at 06:40 by ntmad
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O RECONHECIMENTO DA QUALIDADE

Está a decorrer na net, a selecção das 7 maravilhas gastronómicas de Portugal. O método de selecção foi o seguinte: chefs de reconhecido mérito na arte de bem confeccionar e bem comer, escolheram uma lista de 55 maravilhas da gastronomia nacional, sujeitando-as depois a um crivo mais apertado de um painel de jornalistas e convidados, tendo cada um votado em 21 maravilhas. Seguidamente apuraram-se as 21 maravilhas que maior número de votos obtiveram. Resultou assim uma lista final que é agora colocada a concurso. Entre essas 21 maravilhas estão duas trasmontano/altodurienses. A saber, o presunto de Chaves e as alheiras de Mirandela. A escolha, como sempre acontece em qualquer tipo de selecção, tem o seu quê de subjectivo, podendo ser para uns uma má escolha, podendo ser para outros uma escolha incompleta.


Mas a lista é esta e nela figuram dois exemplares da melhor gastronomia da nossa região o que muito nos apraz.


São esses, que juntamente com outros 19, estão sujeitos ao sufrágio de quem quiser participar, votando em sete deles.

Se o leitor está interessado em colaborar poderá fazê-lo através do site http://www.lagrimashotels.com/7maravilhas.php .


Posted at 06:23 by ntmad
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LANÇAMENTO DO LIVRO "À PROCURA DE ALGO" de Maria de Fátima Figueiras e Abel Luís Fontoura Moutinho

 

No próximo dia 31 de Maio (5ª feira) terá lugar na Sede da CTMAD, pelas 18.30h, o lançamento do livro em título de que é co-autor o nosso ilustre sócio n.º 494, Dr. Abel Moutinho, estando a apresentação da publicação a cargo do Dr. Altino Moreira Cardoso, igualmente associado da CTMAD.

 

Trata-se dum livro que os autores ousaram escrever como prova do amor e afecto que os prendem ao torrão natal, Vale de Espinho, uma aldeia sita na freguesia de Argeriz, concelho de Valpaços.

 

Um roteiro sentimental de vivências e emoções percorrido ao longo da segunda metade do século passado que transporta o leitor às mais profundas raízes das gentes valpacenses. Um livro que se recomenda a quem nutre saudades dos que nos antecederam e que, a cada passo, sentimos obrigação de homenagear por sabermos que o que somos a eles o devemos.


Posted at 06:02 by ntmad
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